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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, TIJUCA, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese
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Porque fazemos o que fazemos
Sei que não escrevo há um tempo e que não to mais detalhando apenas uma assunto, mas ainda assim gostaria de copiar aqui a resposta que enviei a um amigo quando discutiamos sobre o impacto do consumo da carne no mundo, o veganismo e o que podiamos fazer para mudar:
É engraçado como as coisas são; é como dizem, se cada um carregasse uma parte não caberia a ninguém o maior esforço; se cada um aqui fizesse sua parte ninguém precisaria de mártires - ontem estive numa palestra da sociedade taoísta e ele falou algo assim, algo sobre não se apegar ao que faz e não achar que as coisas acontecem por sua causa, as coisas acontecem porque tem que acontecer, é um processo natural.
Já havia refletido sobre isso antes, lendo Fritjof Capra se não me engano, como pequenos movimentos não conectados formam uma rede global harmônica que vai mudando o mundo sutilmente (tenha em vista, por exemplo, a crescente preocupação ambiental, que é causada pela concretização da realidade caótica do clima entre outros) - é o lema do ambientalismo: pensar globalmente, agir localmente.
Sei que não estou conseguindo expor direito o que eu quero dizer, porque é um misto de curiosidade, desabafo, percepção e resposta =) mas é algo assim: não precisamos realmente de grandes coisas, apenas viver a vida da forma como achamos a mais correta.
O difícil nisso tudo, pelo menos pra mim, é descobrir qual é o seu papel e qual a medida certa para a aplicação da sua ideologia. Afinal as mudanças ocorrem naturalmente, mas será que mesmo se ninguém levantando a bandeira? Ou será que contribuímos sim, mas apenas acelerando um processo que não seria nem tão bom nem tão rápido sem nossa ajuda? E essa ajuda pode ser o diferencial quando se contam anos para atingir o ponto de onde não há mais retorno (o fim da nossa era)? E tentar impedir o fim, ainda que instintivamente seja esperado, evolutivamente e espiritualmente as mudanças não ocorrem porque tem que acontecer? Não estaríamos assim retardando o processo?
Depois de refletir sobre as questões do mundo cheguei a uma primeira conclusão que diz que a extinção de determinada espécie não representa o fim, e que é um processo natural (claro que atualmente muito acelerado pela ação do homem), temos medo que isso gere um desequilibro e acabe (talvez mais rápido) com a era do homem como acabaram a de outros animais antes de nós. É certo que negar a transformação é negar o princípio que parece reger o universo e que cada ciclo tem seu início, meio e fim. Então porque tanta preocupação e porque tanta vontade de mudar as coisas?
Minha resposta remete aquela ação quase inconsciente de conforto que damos a uma pessoa amada antes do fim, ele está lá e irá chegar, breve ou não, o que queremos na trajetória é dar conforto e esperar que durante aquele momento ela viva bem.
Acho que é uma busca: não mudar para que não acabe, mas mudar para que seja bom enquanto dure.
Mas, quem sabe... costumo dizer que não chego a conclusões, vou desenhando as respostas aos pouquinhos; até porque é difícil não cometer o erro daqueles que buscam entender a verdade, mas, rejeitando a possibilidade de estarem errados, inconscientemente buscam apenas uma justificativa para estarem certos.
Abração bro, se cuida.
Escrito por Sabiá às 00:06
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Crueldade humana
Existem pessoas que defendem que o ser-humano é melhor que outros animais pois tem a consciência de si próprios e das coisas ao redor; se assim é, não podíamos ser mais redundantes no título para este tópico, pois o único capaz de ser cruel é um ser que entenda completamente o que faz, de forma contrária não se pode considerar que se teve a intenção de chegar a determinado objetivo ou que se reconhece o que aquele objetivo significa, assim, a crueldade é uma característica humana.
Alguns podem dizer que determinada pessoa que não teve instrução ou nasceu em determinada cultura não tem a capacidade de entender o que faz a um animal desta forma; eu discordo; acho que é impossível não se reconhecer a dor e o sofrimento uma vez que ele é expresso da mesma forma por todos os animais, mais visível ainda quando se trata de um mamífero, que possui estruturas gerais idênticas às nossas.
Acredito no dito de que se cada homem fosse responsável por matar seu próprio alimento a humanidade seria vegetariana. Já me expressei diversas vezes dizendo que não sou contra a morte, mas quando por necessidade e quando sem crueldade, exatamente por que temos a capacidade de compreender e assim, de respeitar.
Mas infelizmente muitos de nós não se importam com isso e mesmo se achando melhores parecem não possuir aquilo que acreditam que os fazem melhores e esquecem que com grande poder vem grande responsabilidade.
É triste ver a forma com que a sociedade desperdiça seu dom e dia-a-dia segue em um rumo que leva a sua própria destruição.
Assistam ao vídeo Earthlings .
Abraços
Escrito por Sabiá às 23:48
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Matas silenciosas...
Quebrando um pouco o tema de esgotamento sanitário, queria divulgar este texto que recebi por e-mail. Quase um poema e que fala uma verdade que acontece longe dos olhos do povo das cidades, movidos por incentivos nacionais e empresas de grande porte, a criação de reservas de eucalipto (silvicultura) para a industria papeleira (para uso do povo da cidade) é muito questionada, não só por ambientalistas, não só por cientistas, mas por aqueles que vivem o dia a dia da transformação de sua realidade e nada podem com estes gigantes: o povo do campo...
"Mudos
Muitos são os anéis que seus aniversários desenharam em seu tronco. Estas árvores, estes gigantes cheios de anos, levam séculos cravados no fundo da terra, e não podem fugir. Indefesos diante das serras elétricas, rangem e caem. Em cada derrubada o mundo vem abaixo; e a passarada fica sem casa.
Morrem assassinados os velhos estorvos. Em seu lugar, crescem os jovens rentáveis. Os bosques nativos abrem espaço para os bosques artificiais. A ordem, a ordem militar, ordem industrial, triunfa sobre o caos natural. Parecem soldados em fila os pinheiros e eucaliptos de exportação, que marcham rumo ao mercado internacional.
Fast food, fast wood: os bosques artificiais crescem num instante e vendem-se num piscar de olhos. Fontes de divisas, exemplos de desenvolvimento, símbolos de progresso, esses criadouros de madeira ressecam a terra e arruínam os solos.
Neles, os pássaros não cantam.
As pessoas os chamam de bosques do silêncio."
- Eduardo Galeano
Existe um artigo no site da DMA escrito por João José Sady entitulado: "A respeito de florestas silênciosas e homens desesperados" que merece uma leitura - DMA
Abraços! (ps: leiam também o texto sobre a palestra do Prof Rios, abaixo)
Escrito por Sabiá às 00:38
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"Deixe que quem sabe fale"...
Este foi um recado não tão grosso quanto pode parecer, mas bem sensato, oferecido pelo Prof. Rios durante sua palestra sobre hidráulica ambiental, onde tratou sobre o lançamento de efluentes.
Comentou isso, e não apenas ele (quem leu o texto do B. Piropo bem sabe), por achar um absurdo pessoas levantarem bandeira contra coisas e nem mesmo se darem ao trabalho de pesquisar; serem apenas guiadas pela consciência ou pela mídia. É um caso muito comum quando você trata de lançamento de efluentes; realmente parece existir um inconsciente coletivo de estarmos jogando o lixo pra longe, mas segundo os professores (o Prof Botafogo, que participou da construção do Emissário de Ipanema também estava lá) a questão não é bem assim.
Segundo eles, todos os processos de tratamento são na verdade o homem copiando a natureza, pois é exatamente o que a natureza faz, principalmente quando se trata de mar, que possui um alto poder de depuração de matéria orgânica. Depois, faz isso de forma gratuita, sem gasto energético e sem gasto de combustíveis no transporte do lodo (resultado do tratamento de esgoto) e sem o lançamento deste em um lixão como o de Gramacho (cujo chorume cai direto na Baía de Guanabara). E ainda traz vida ao oceano, pois, como bem é sabido, o mar aberto é um deserto de vida, pois os nutrientes ou se encontram na costa, ou no fundo do mar, longe do acesso dos fotossintetizantes base de toda rede alimentar (situação que se reverte apenas quando surgem as correntes ascendentes).
Tudo isso faz o emissário parecer uma maravilha, mas como a Cris havia bem lembrado, existem outras questões que devem ser bem observadas. Fiz questão de perguntar portanto (no título de "leigo curioso" =P) se o despejo de certos elementos químicos não prejudicaria a vida no mar, ao que os professores responderam que o poder de diluição é muito grande, tanto pelo volume, quanto pelas correntes e pelo uso de difusores, e se mantiveram na resposta quando perguntei se havia risco a longo prazo de concentração. Perguntei também se não havia risco de assoreamento causado pela deposição da matéria orgânica no fundo do mar, e na verdade há o de eutrofização no ponto de lançamento, fato não muito comentado como explicou o Prof Botafogo.
Pena que não lembrei na hora de perguntar sobre duas coisas, a primeira é o risco para o ambiente marinho dos produtos de limpeza usados diariamente como água sanitária, amaciantes, sabão, bactericidas, etc, e também sobre o impacto do óleo de cozinha que é despejado ralo a baixo em milhares de lares e estabelecimentos pelo Rio. Mas vou aproveitar e perguntar por e-mail.
Apesar de ser consenso dos professores que o emissário (assim como a alta chaminé de uma fábrica) é criando com vista de proteger algo, neste caso, as praias e os banhistas; e de que o emissário é uma solução para o tratamento (neste caso, “lançamento”) do esgoto, acho sensato seguir o conselho do próprio professor, e continuar pesquisando. Fato que a impressão que deu foi uma preocupação grande com o custo do tratamento e uma visão geral de que ele não era justificado.
Assim que souber mais, eu escrevo aqui (Os: pra quem não recebeu por e-mail, dá uma olhada no quadro ao lado, em filmes e assista ao vídeo Water Planet, produzido pelo Instituto Leonard Dicaprio; muito interessante / Obs2: fiquei devendo os comentários do Oceanólogo David Zee, mas fica pra próxima)
Abraços!!!
Escrito por Sabiá às 02:07
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Falhas no Projeto...
E logo agora que o emissário começava a me parecer uma boa solução, o projeto sofre com instabilidade do terreno abaixo da Av. Ayrton Senna, que sede depois da instalação dos tubos e a CEDAE informa que precisará de mais 45 dias para concluir o projeto, pois precisa estaquear 700 m de tubulação para evitar que o fato se repita. Ou seja, emissário só em junho. O que me espanta nesta história é o engenheiro responsável pelo projeto creditar a movimentação do terreno possivelmente à febre imobiliária e às obras do PAN, afirmando que é "terreno de turfa, com muito lodo", informação que eles já possuíam e que deviam ter previsto, imagina se o emissário já estivesse em funcionamento...
Enquanto isso o próprio O Globo divulga foto da Lagoa de Jacarepaguá, tomada por gigogas, o que significa excesso de matéria orgânica na água e a SERLA anuncia que continuará a medida inútil, mas necessária, de retirar o material da região. E a CEDAE faz uma confusão ao afirmar que pretende construir um aquário gigante em área tombada e de administração da prefeitura (J. de Alah) numa obra orçada em 66 milhões de reais, como TAC pelo atraso na reforma de elevatórias para melhorar o saneamento da Lagoa Rodrigo de Freitas! Ao mesmo tempo em que diz não ter dinheiro para terminar as obras da ETE. É uma bagunça só.
A CEDAE, no entanto, se justificou dizendo que apenas 3 milhões viriam da companhia, mas ainda assim, devo concordar com os moradores: com tanta necessidade, gastar com um supérfluo destes? (2/3 do J. de Alah ocupados pelo projeto!) Até porque se as medidas de saneamento forem implementadas de forma correta, não precisaremos de aquários para a vida aquática, ela existirá em liberdade.
Por fim, gostaria de acrescentar uma reflexão que fiz ao ler um capitulo sobre as "civilizações fluviais" do livro "Como Cuidar da Nossa Água". Na época do início da civilização, tínhamos um contato e uma relação com os recursos hídricos enorme, alias tanto que religiões e diversos simbolismos estão intimamente relacionados à água, e tínhamos o respeito por ela, pois pelo contato direto a relação de dependência era mais óbvia. É diferente ficar sentado em seu quarto, no topo de um prédio, recebendo água pela torneira e executando suas atividades diárias que por si só consomem tanta água e estar em contato com o rio, buscar nele sua água e alimento, saber e interagir com as cheias e as secas, etc. Não sabemos. Não respeitamos. Acredito que a maioria nem mesmo sabe o nome do rio que nos "abastece". E como do mar costeiro não tiramos nenhum sustento (não diretamente e por tanto impossível de perceber pela nossa sociedade imediatista e linear) também não sabemos e não queremos saber suas condições.
É algo que faz pensar saber que o Código de Hamurabi, da extinta Babilônia, previa multa e outras punições a quem prejudicasse o abastecimento de água...
Abraços!
- Emissário da Barra, agora, só em junho - CEDAE: Problemas em obra do emissário não alteram cronograma - Jardim de Alah poderá ganhar aquário gigante - Moradores criticam proposta de aquário gigante no Jardim de Alah
Escrito por Sabiá às 00:55
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Analisando a teoria na prática...
Andei pesquisando mais sobre emissários e existe muita informação disponível e relacionada, tanta que estou quase perdendo o fio do assunto (fui parar em programas de proteção ao Mero!). Como ainda não busquei nenhum dado técnico sobre o impacto do emissário, tentei fugir um pouco da teoria e fui pesquisar sobre um outro emissário, o de Ipanema, que já funciona há 30 anos, para ver o que poderíamos aprender com ele.
O emissário de Ipanema funciona basicamente como o emissário da Barra funcionará; ele recebe de uma rede coletora esgoto de parte do centro e de toda a zona sul, e o despeja, in natura, a 4 km da costa, de frente ao arquipélago das Cagarras. São cerca de 6.000 L de esgoto por segundo.
Se a obra foi fundamentada por questões ambientais e sanitárias, e analisando as características atuais das praias, ou o emissário não funciona ou se não existisse... Segundo o relatório de balneabilidade emitido pela FEEMA dia 31 de março, na praia de Ipanema o banho não é recomendado por 24 horas após chuvas ou próximo ao canal do Jardim de Alah, e no Leblon, toda a praia é considerada imprópria.
Tive oportunidade de ler um artigo muito bem humorado, escrito pelo Eng. Benito Piropo (CEDAE) em defesa do que chamou de a “Geni” carioca. Segundo ele o emissário foi construído de tal forma que se considerasse a velocidade das correntes, a diluição por dispersores e o decaimento da concentração de microorganismos (ação bactericida do mar) de forma a garantir que a poluição não alcançaria a praia. De fato, afirma que as concentração de poluentes só estão acima do permitido num raio de 1 km da boca do emissário (segundo testes realizados nos últimos 30 anos), e que, portanto a poluição das praias nada tem a ver com o projeto e sim com o esgoto ilegal lançado nos canais da Visconde e do J. de Alah.
Faz sentido pensar desta forma por dois motivos: o primeiro é a recomendação da própria FEEMA com restrição ao banho 24 horas após chuva em áreas onde desembocam rios, o que significa que a poluição está ligada a estes corpos e segundo pela enorme diferença da qualidade das águas da costa para a das Ilhas Cagarras.
Falo da diferença pois acabei de assistir um série lançada ano passado pelo RJ TV, “Mar aberto”, tratando sobre as ilhas costeiras desta região, e as imagens já dão uma boa dica da diferença. Na filmagem, onde as águas são cristalinas, aparecem corais, algas, golfinhos, aves e uma diversidade de peixes, incluindo o gigantesco e ameaçado Mero.
Já o emissário, por ser mais antigo que a lei do Dep. Carlos Minc, foi construído apenas com o pré-tratamento, condição igual a que terá o emissário da Barra, se entrar em operação no final de abril. No entanto, “ouvi falar” há algum tempo que esta carga extra de matéria orgânica lançada no ambiente, assim que dispersada sua concentração, favorecia a vida marinha, desenvolvendo toda a rede alimentar.
Apesar das informações acima parecerem favoráveis ao emissário existem ainda outras denúncias a serem analisadas e listo as mais importantes: a hepatite A sobrevive até 100 dias em águas salgadas; a redução da diversidade e da quantidade de vida marinha está ligada ao emissário; e estudos realizados na baia de Campos indicando que o esgoto in natura gera um acúmulo de sedimentos (assoreamento, poluição) e está relacionada a mortalidade de pequenos crustácios.
No próximo "post" pretendo comentar as entrevistas com o oceanógrafo da UERJ, David Zee, que apóia o emissário da Barra como uma solução.
Quem quiser visitar as fontes, há uma leitura farta:
- Série RJ TV "Mar Aberto" (assista ou leia as matérias) - O emissário de Ipanema - Mitos e Verdades (Eng. B. Piropo) - Waves - A comunidade Virtual do Surf - Condições de Balneabilidade (FEEMA) - O que é Balneabilidade? (CESTEB) - A história do tratamento de esgoto na cidade do Rio de Janeiro (CEDAE)
Abraços!
Escrito por Sabiá às 03:39
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O retorno... de novo =)
Olá pessoal!
Encerramos ano passado com a promessa de iniciarmos um fórum no site da DMA que na verdade nunca saiu do papel (muito trabalhoso e conhecimento que ainda não detínhamos) e acabamos migrando para o orkut, onde, infelizmente, continuamos sem um fórum de verdade, tanto pela própria estrutura do Orkut quanto pelo seu propósito (entre um scrap e outro a comunidade acabou esquecida). E como de tempos em tempos me bate aquela vontade de escrever... Estou de volta, sem compromisso, sem cadência e sem votos de amor eterno, mas espero publicar textos na nossa temática sempre que possível, ampliando para falar também da DMA, grupo que me é muito querido.
Existem muitos assuntos que eu gostaria de tratar neste momento, mas como temos que escolher apenas um, vamos iniciar com um assunto urgente divulgado na revista do CREA-RJ deste mês. Urgente sim, pois estamos às vésperas da inauguração do Emissário da Barra, o caminho final de uma rede coletora de esgoto com capacidade de lançar ao mar 2.800 litros de esgoto por segundo!
É um volume alarmante, mas que tem que ir para algum lugar, porque esgoto, assim como tudo o que produzimos, não desaparece quando puxamos a descarga. Mas o emissário não é exatamente um vilão do meio ambiente, na verdade, se seguidos padrões de normas ambientais, este esgoto pode chegar a níveis de poluição quase insignificantes. Para isso o esgoto deve passar por diversas fases, sendo que a primeira é o pré-tratamento, onde se retiram as grandes partículas e a areia; segue-se então para a o tratamento primário, onde por sedimentação retira-se as partículas orgânicas menores; depois, no tratamento secundário, microorganismos consomem a matéria orgânica coloidal e uma nova sedimentação é realizada; por fim, pode se processar uma nova fase onde a água será desinfetada e/ou ter reduzidas as concentrações de determinados elementos como o fósforo. Esta água-produto-final pode ser inclusive reutilizada para, por exemplo, lavar carros.
Mas como nem mesmo na Austrália, país com maior número de emissários do mundo, todo o esgoto recebe tratamento ideal (porém no mínimo até o secundário), aqui estamos longe das flores. Temos uma lei estadual de 96 criada pelo deputado Carlos Minc que determina que todo o esgoto deve ter no mínimo tratamento primário, sendo que os órgãos ambientais podem pedir tratamento mais rigoroso constatada a necessidade. Prevê também que nenhum tipo de poluente pode ser lançado na rede de esgotos que exija tratamento adicional além do comumente realizado e que as instalações de tratamento devem ser criadas já com a previsão de crescimento de volume de esgoto (dados do planejamento de ocupação de solos, etc).
O tratamento primário já representa uma significativa melhora na quantidade de poluentes orgânicos, pois consegue reduzir em até 50% (limite extremo; pela lei, mínimo de 30%) o valor estimado de 300 mg/L de matéria orgânica contida no esgoto. Esta redução aliada à emissão destes materiais a quilômetros da costa facilitaria a diluição, evitaria a poluição, a eutrofização e qualquer risco aos banhistas por conta de organismos patogênicos (ação bactericida do mar). Mas este é exatamente um dos motivos da controvérsia.
Com a redução da % dos Royalties do petróleo repassados ao meio ambiente (de 20 para 5%) pela Governadora Rosinha, o projeto ficou sem verbas para ser concluído como planejado, impossibilitando a construção da estação de tratamento de esgoto. Como a lei impedia a entrada em funcionamento do emissário sem a ETE, o governo iniciou uma pressão na ALERJ para aprovar um projeto de lei que tornasse maleável as exigências e permitisse a entrada em funcionamento do emissário antes que a ETE ficasse pronta. Os motivos eram diversos, o principal seria a urgência em desafogar o complexo lagunar da Barra e lançar o esgoto em natura no mar ("...dar veneno a um doente terminal [as lagoas] ou envenenar por um período de tempo um paciente saudável [o mar]?" - Ganghi Giordano), mas outros já vêem de outra forma: a urgência é completar uma obra em ano eleitoral e utilizá-la na campanha, correndo o risco de a ETE nunca ficar pronta eleitos os próximos governos.
A pressão foi tamanha que a alteração à lei foi aceita, principalmente baseando-se nos dados técnicos do Emissário - em capacidade total (2.800 L/s) com tratamento de esgoto lançaria 420.000 mg/L de matéria orgânica ao mar, mas com a capacidade atual de "apenas" 900 L/s (devido à falta de obras nas ligações de recepção de esgoto), sem tratamento, lançaria ao mar "apenas" 270.000 mg/L estando, portanto, abaixo do limite num cenário ideal.
Impossível deixar de questionar, no entanto, (apesar de eu não ser nenhum técnico) que o esgoto in natura possui matéria com particulas de tamanhos maiores de 10 cm e que sua degradação e diluição devem ser mais lentas... além, o CREA-RJ chama atenção para a lei, pois projetos superestimados quanto ao lançamento de matéria orgânica podem ser criados para construir emissários que nunca funcionarão no limite máximo, nunca terão ETEs e estarão, ainda por cima, dentro da lei.
Esta é a “Parte Um” da discussão e existem outros temas a serem abordados a respeito, mas podemos começar por aqui. Gostaria ainda de informar que a maioria das informações foi retirada das fontes abaixo relacionadas:
- CREA-RJ em Revista Nº56 / 2006 - Lei Nº 2.661/96 - Lei Nº 4.692/05 - Wikipedia: ETAR - SABESP - Universidade da Água
Abraços!!
Escrito por Zeh às 02:29
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